Metodologia Filosófica - Dominique Folscheid & Jean-Jacques Wunenburger

PREFÁCIO

 Os estudos de filosofia, nos ciclos deformação universi tária, têm, na França pelo menos, um estatuto paradoxal: todo estudante teve ocasião de se familiarizar com essa disci plina, ensinada em todas as seções do ensino de segundo grau, de modo que o ensino superior apresenta-se como um prolon gamento de uma disciplina já conhecida; mas, inversamente, a forma e o conteúdo desse ensino, limitado, no essencial, ao último ano do ensino secundário, não podem ir além de uma iniciação geral, muito distante ainda das exigências de um aprofundamento universitário. Nesse contexto, um livro de metodologia filosófica, desti nado aos estudantes da universidade e dos cursos preparató rios a certas faculdades, é concebido primeiramente como uma formulação sistemática das técnicas intelectuais para as quais o estudante já foi preparado no ensino secundário. Mas ele é mais do que isso: não se poderia abordar, nesse nível, as questões de metodologia sem ligá-las à cultura filosófica e à maturidade reflexiva já adquiridas. Pois não basta mais adquirir métodos de trabalho, que já mostraram seu valor nas diferentes formações de tipo universitário, com o simples objetivo de progredir na realização de trabalhos escritos ou orais. O essencial, agora, é ser capaz de acompanhar as exi gências práticas de elucidação e de justificação propriamente filosóficas. Com efeito, a metodologia não poderia ser assi milada e limitada a um conjuhto de técnicas gerais cuja apli cação hábil permitiria um bom resultado nas provas impos tas. Ela não é uma pura habilidade que se acrescentaria de VIII METODOLOGIA FILOSÓFICA fora ao saber. Pois só é possível adquirir métodos de traba lho em filosofia se antes for compreendido que o método é ine rente à própria filosofia. Elaborar uma metodologia, com efei to, já é fazer filosofia, já que isso envolve necessariamente uma concepção filosófica da filosofia. Nesse sentido, os exercícios acadêmicos derivam sua lógica e sua necessidade internas, não de um decreto arbitrá rio imposto pela instituição, mas das exigências próprias do pensamento filosófico quando ele analisa, raciocina, argu menta, critica. O método obedece a uma necessidade interna e não a um capricho vindo de alguma outra parte. Seria inú til, portanto, esperar dominar técnicas se não se compreende a razão de ser que está inscrita no modo de pensar filosófico. Por isso a metodologia filosófica não tem existência em si, autonomia em relação à disciplina; ao contrário, ela se con funde com o conjunto das exigências teóricas e especulativas do ato de filosofar, cujo objetivo é dar às idéias e à reflexão o mais obstinado rigor e a maior perfeição possível. A preocu pação metodológica ultrapassa assim, largamente, a ambição utilitarista, uma vez que segue o movimento pelo qual a refle xão espontânea se transforma em pensamento filosófico. Ao praticar exercícios de filosofia, trata-se de impregnar-se ainda mais de filosofia e, finalmente, de melhor filosofar. Por isso os autores deste livro, professores da Universi dade e professor de classes preparatórias a certas faculdades, não quiseram se contentar com uma caixa de ferramentas sim plificada para aprendizes de filósofo. Eles se recusaram a pro por, por um lado, uma apresentação dogmática de técnicas, que poderia fazer o leitor pensar que existe, para todo exercí cio filosófico, um único método, cuja aplicação cega e mecâni ca garantiria um sucesso infalível; por outro lado, uma apre sentação didática, escolar, que consistiria em prever todos os casos possíveis, todas as dificuldades, todos os exemplos, o que dispensaria o estudante de qualquer esforço de invenção e de adaptação quando se vê sozinho diante de um exercício filosó fico. A exaustividade, nesse domínio, não é possível nem dese jável, porque inibiria a inteligência. Muito pelo contrário, eles buscaram definir um verda deiro órganon da prática da filosofia em geral, do qual os PREFÁCIO IX exercícios filosóficos já constituem a preparação. Nesse sen tido, a metodologia filosófica aqui apresentada distingue-se de um manual de técnicas pedagógicas válidas para esta ou aquela situação escolar; ela pretende ser como uma teoriza- ção acabada de toda atividade de leitura e de composição de idéias filosóficas, do exame de 2e grau do concurso para o magistério. Ainda que os problemas práticos enfrentados pelo estudante iniciante sejam sempre levados em conta, o objeti vo essencial consiste em fazer adquirir, de uma vez por todas, os mecanismos e os hábitos necessários para conduzir qual quer reflexão em filosofia. Se este livro é publicado numa co leção destinada antes de tudo aos estudantes do primeiro ciclo universitário, não é porque lhes seria exclusivamente destinada, como se pudesse haver posteriormente uma meto dologia própria ao segundo e ao terceiro ciclos; mas porque é exatamente nesse momento de sua formação que o estudan te aprende, ou não, a filosofar. É desde o começo que nos for mamos, bem ou mal, para uma prática ou uma profissão, e não há progresso possível, numa atividade, se o espírito não estiver bem formado desde o início. Portanto, não se trata de definir uma metodologia em pequenos passos, acanhada, “adaptada” a um público de neófitos: uma metodologia é filosófica ou não é; é verdadeira e fecunda, de direito, para todos, iniciantes ou estudantes veteranos. Tal é, pelo menos, a ambição dos autores, com seus riscos e perigos. Certamente o ensino filosófico está exposto, mais do que outros, a dificuldades específicas, que podem suscitar desâni mo ou ilusões no estudante. Com efeito, escolhe-se geralmen te seguir uma formação filosófica porque essa disciplina, apesar de sua abstração, responde a interrogações e a inte resses existenciais e porque envolve convicções e valores pes soais. No entanto, a filosofia, desde sua origem, apresentou- se como uma atividade do espírito que pede que suspendamos as opiniões imediatas, que nos mantenhamos afastados das discussões espontâneas, na medida em que estas só nos reme tem a nossos preconceitos e a nossas crenças irrefletidas. De fato, a filosofia se impôs através da história como um desvio em relação ao concreto, ao vivido, ao subjetivo, a fim X METODOLOGIA FILOSÓFICA de dar-se os meios e o tempo de estabelecer os pressupostos de nossos pensamentos, de formular questionamentos claros, de desenvolver raciocínios sistemáticos, de explorar diferen tes configurações possíveis das idéias, em contato com sabe- res ampliados e enriquecidos. Aprender a filosofar exige por tanto uma paciência tanto maior quanto mais cedo nos dedi camos a tal, isto é, na idade de todos os entusiasmos. Pois, como já sublinhava Platão: “Deves ter notado, acredito, que os adolescentes que alguma vez experimentaram a dialética abusam dela e fazem dela um jogo, utilizando-a apenas para contradizer, e, a exemplo daqueles que os confundem, tam bém eles confundem os outros, sentindo prazer, como cachor- rinhos, em acossar e espieaçar com o raciocínio todos os que se aproximam”, quando o conveniente seria antes imitar "os espíritos moderados e firmes, e, ao contrário do que se faz atualmente, não deixar que se aproxime dela o primeiro que chegar, se não trouxer alguma disposição" (A República, VII, 539 b s.). E essencial portanto dispor, em filosofia, como na apren dizagem das ciências teóricas ou aplicadas, de métodos que não se confundam com simples técnicas pragmáticas, aplicá veis a todos os problemas mas que permitam pensar melhor, raciocinar melhor, refletir melhor por si mesmo sobre as questões colocadas pela própria vida. Aprender filosofia não é aprender a servir-se de um instrumento para aumentar nosso poder sobre as coisas ou sobre os homens, mas é adquirir progressivamente a arte de desenvolver as aptidões de nosso próprio espírito a julgar e raciocinar em geral. Em quais contextos encontram-se então os problemas de metodologia filosófica? Dito de outro modo, quais são as principais vias de acesso à filosofia e quais são suas dificul dades? Antes de mais nada, todo procedimento filosófico encon tra diante de si uma história, um passado. Não poderíamos fazer como se começássemos a filosofar sozinhos e pela pri meira vez. Filosofar é, em primeiro lugar, colocar-se em pre- sença de uma filosofia anterior. Entretanto, isso não significa inclinar-se diante de uma tradição, como se festejam os san PREFÁCIO XI tos; as grandes filosofias são algo bem diferente de obras-pri mas insuperáveis que suscitariam a veneração e que devería mos visitar como um museu. Ao contrário de uma fria histo riografia, a história da filosofia deve servir para descobrir pensamentos vivos em ação, para encontrar filosofias em ato, através das quais possamos dar a nosso próprio pensamento um suporte, um quadro para orientá-lo. Por isso a prática da filosofia é, antes de mais nada, inseparável de uma freqüenta- ção de textos que devemos aprender a ler, a explicar e a comen tar. Por essa prática podemos esperar reconstituir escrupulosa mente o trabalho do pensamento de outrem, evitando os este reótipos escolares que simplificam as obras, contornando o obstáculo das palavras e a aparência enganosa das fórmulas prontas, ao mesmo tempo que situamos as filosofias em iti nerários, contextos, sistemas coerentes, que as liberam de todo peso histórico e as elevam à categoria de pensamento vivo e atual. Mas a história da filosofia torna-se, assim, um meio de nos exercitarmos em formular e em resolver problemas. Tal é o objetivo da dissertação, que, através de questões, acadêmi cas ou inéditas, permite ao aprendiz de filósofo confrontar-se com modos de raciocínio, hipóteses, escolhas, acompanhados de suas premissas e conseqüências. A dissertação constitui portanto, nesse sentido, uma espécie de pré-exercício de toda atividade filosófica chegada à maturidade, um treinamento em tamanho natural para pensar filosoficamente. Longe de ser um exercício de escola impessoal e rotineiro, ela torna-se a ocasião privilegiada para um pensamento inexperiente pôr- se à prova, pôr-se em jogo assumindo riscos, efetuando esco lhas, formulando conclusões, ainda que provisórias ou hipo téticas. Compreende-se assim por que uma dissertação se enriquece ao apoiar suas hipóteses e seus raciocínios numa cultura filosófica histórica, que sirva não de molde, mas de matéria-prima a um pensamento vivo e organizado. Com preende-se também por que é preciso evitar refugiar-se atrás de resumos estéreis de doutrinas que desempenhariam o papel de tapa-buraco ou de enfeite, a fim de ostentar um vaber ou de impressionar facilmente o leitor. XII METODOLOGIA FILOSÓFICA Deste modo, a aprendizagem da filosofia, que visa em princípio à autonomia intelectual, não pode dispensar o domínio de técnicas de leitura, de interpretação de textos e de tratamentos sistemáticos de questões clássicas. Ao confor- mar-se e ao obrigar-se a tais exercícios, o espírito se forma autenticamente, se disciplina metodicamente, para satisfazer aquilo que o motiva, um desejo de pensar. Certamente, ainda que todo estudante se veja confronta do às mesmas necessidades intelectuais, não se poderia subes timar a importância das situações individuais de aprendizagem e deformação, pois as vias de acesso e as normas de êxito não são as mesmas para todos. Em conseqüência, cabe personali zar as formações, seu ritmo e seu estilo, e isto por duas razões, pelo menos:- de um lado, é importante modular as exigências gerais que vão ser expostas no livro, levando em conta a via universi tária tomada pelo estudante. Não se espere a mesma amplitude de conhecimentos e a mesma profundidade de reflexão de estu dantes especializados em estudos de filosofia e daqueles para os quais a filosofia representa apenas um ensino opcional num currículo. Uma dissertação será avaliada diferentemente con forme os cursos e as séries, mesmo se é lícito esperar de todo estudante, por exemplo, as mesmas aptidões para ler um texto. Aliás, terá que se prestar atenção ao fato de que certos cursos de formação (classes preparatórias para a HEC*, por exem plo) podem, segundo a natureza dos concursos, valorizar, em maior ou menor grau, esta ou aquela qualidade metodológica;- de outro lado, convém prever, para certos estudantes, conforme o curso seguido no ensino secundário, um programa de trabalho preparatório ou complementar de nivelamento ou de reforço dos saberes e habilidades, sobretudo por ocasião do primeiro ano do primeiro ciclo universitário. Dadas a diversidade de horários, as diferenças de nível de cultura e de prática filosóficas, é aconselhado a esses estudantes que com pletem seus conhecimentos, pautando-se pelos conteúdos e pe * Escola Superior de Comércio. (N. do T.) PREFÁCIO XIII las exigências do curso que teve o ensino filosófico mais com pleto. Para tanto, recomenda-se que estudem por si mesmos, a partir de obras adaptadas, as partes do programa que não teriam sido abordadas e que reforcem sua cultura filosófica através de livros de síntese sobre esta ou aquela parte do pro grama, ou esta ou aquela corrente filosófica - algumas refe rências serão encontradas na bibliografia final. Seja como for, pode tornar-se indispensável aumentar o número dos exercí cios (explicação e comentário de textos, dissertação) em rela ção às normas em vigor no curso universitário. Mas, qualquer que seja o perfil da formação anterior, a eficácia do trabalho dependerá sempre da parte de empenho pessoal, da capacidade de iniciativa do estudante, de seu desejo de ler e de escrever, únicos fatores a permitir que o conjunto das orientações a seguir dêem seus frutos. 0 presen te livro não poderia, assim, convidar o estudante a contentar- se em reproduzir esta ou aquela receita. Como um bom mes tre, ele não tem outro objetivo senão tornar-se perfeitamente inútil assim que se alcançou por si mesmo um domínio do tra balho e do pensamento filosóficos, o que implica em primeiro lugar um desejo de filosofar, pura e simplesmente

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