PREFÁCIO
Os estudos de filosofia, nos ciclos deformação universi
tária, têm, na França pelo menos, um estatuto paradoxal:
todo estudante teve ocasião de se familiarizar com essa disci
plina, ensinada em todas as seções do ensino de segundo grau,
de modo que o ensino superior apresenta-se como um prolon
gamento de uma disciplina já conhecida; mas, inversamente,
a forma e o conteúdo desse ensino, limitado, no essencial, ao
último ano do ensino secundário, não podem ir além de uma
iniciação geral, muito distante ainda das exigências de um
aprofundamento universitário.
Nesse contexto, um livro de metodologia filosófica, desti
nado aos estudantes da universidade e dos cursos preparató
rios a certas faculdades, é concebido primeiramente como
uma formulação sistemática das técnicas intelectuais para as
quais o estudante já foi preparado no ensino secundário. Mas
ele é mais do que isso: não se poderia abordar, nesse nível, as
questões de metodologia sem ligá-las à cultura filosófica e à
maturidade reflexiva já adquiridas. Pois não basta mais
adquirir métodos de trabalho, que já mostraram seu valor
nas diferentes formações de tipo universitário, com o simples
objetivo de progredir na realização de trabalhos escritos ou
orais. O essencial, agora, é ser capaz de acompanhar as exi
gências práticas de elucidação e de justificação propriamente
filosóficas. Com efeito, a metodologia não poderia ser assi
milada e limitada a um conjuhto de técnicas gerais cuja apli
cação hábil permitiria um bom resultado nas provas impos
tas. Ela não é uma pura habilidade que se acrescentaria de
VIII
METODOLOGIA FILOSÓFICA
fora ao saber. Pois só é possível adquirir métodos de traba
lho em filosofia se antes for compreendido que o método é ine
rente à própria filosofia. Elaborar uma metodologia, com efei
to, já é fazer filosofia, já que isso envolve necessariamente
uma concepção filosófica da filosofia.
Nesse sentido, os exercícios acadêmicos derivam sua
lógica e sua necessidade internas, não de um decreto arbitrá
rio imposto pela instituição, mas das exigências próprias do
pensamento filosófico quando ele analisa, raciocina, argu
menta, critica. O método obedece a uma necessidade interna
e não a um capricho vindo de alguma outra parte. Seria inú
til, portanto, esperar dominar técnicas se não se compreende
a razão de ser que está inscrita no modo de pensar filosófico.
Por isso a metodologia filosófica não tem existência em si,
autonomia em relação à disciplina; ao contrário, ela se con
funde com o conjunto das exigências teóricas e especulativas
do ato de filosofar, cujo objetivo é dar às idéias e à reflexão o
mais obstinado rigor e a maior perfeição possível. A preocu
pação metodológica ultrapassa assim, largamente, a ambição
utilitarista, uma vez que segue o movimento pelo qual a refle
xão espontânea se transforma em pensamento filosófico. Ao
praticar exercícios de filosofia, trata-se de impregnar-se
ainda mais de filosofia e, finalmente, de melhor filosofar.
Por isso os autores deste livro, professores da Universi
dade e professor de classes preparatórias a certas faculdades,
não quiseram se contentar com uma caixa de ferramentas sim
plificada para aprendizes de filósofo. Eles se recusaram a pro
por, por um lado, uma apresentação dogmática de técnicas,
que poderia fazer o leitor pensar que existe, para todo exercí
cio filosófico, um único método, cuja aplicação cega e mecâni
ca garantiria um sucesso infalível; por outro lado, uma apre
sentação didática, escolar, que consistiria em prever todos os
casos possíveis, todas as dificuldades, todos os exemplos, o que
dispensaria o estudante de qualquer esforço de invenção e de
adaptação quando se vê sozinho diante de um exercício filosó
fico. A exaustividade, nesse domínio, não é possível nem dese
jável, porque inibiria a inteligência.
Muito pelo contrário, eles buscaram definir um verda
deiro órganon da prática da filosofia em geral, do qual os
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IX
exercícios filosóficos já constituem a preparação. Nesse sen
tido, a metodologia filosófica aqui apresentada distingue-se
de um manual de técnicas pedagógicas válidas para esta ou
aquela situação escolar; ela pretende ser como uma teoriza-
ção acabada de toda atividade de leitura e de composição de
idéias filosóficas, do exame de 2e grau do concurso para o
magistério. Ainda que os problemas práticos enfrentados pelo
estudante iniciante sejam sempre levados em conta, o objeti
vo essencial consiste em fazer adquirir, de uma vez por todas,
os mecanismos e os hábitos necessários para conduzir qual
quer reflexão em filosofia. Se este livro é publicado numa co
leção destinada antes de tudo aos estudantes do primeiro
ciclo universitário, não é porque lhes seria exclusivamente
destinada, como se pudesse haver posteriormente uma meto
dologia própria ao segundo e ao terceiro ciclos; mas porque
é exatamente nesse momento de sua formação que o estudan
te aprende, ou não, a filosofar. É desde o começo que nos for
mamos, bem ou mal, para uma prática ou uma profissão, e
não há progresso possível, numa atividade, se o espírito não
estiver bem formado desde o início. Portanto, não se trata de
definir uma metodologia em pequenos passos, acanhada,
“adaptada” a um público de neófitos: uma metodologia é
filosófica ou não é; é verdadeira e fecunda, de direito, para
todos, iniciantes ou estudantes veteranos. Tal é, pelo menos, a
ambição dos autores, com seus riscos e perigos.
Certamente o ensino filosófico está exposto, mais do que
outros, a dificuldades específicas, que podem suscitar desâni
mo ou ilusões no estudante. Com efeito, escolhe-se geralmen
te seguir uma formação filosófica porque essa disciplina,
apesar de sua abstração, responde a interrogações e a inte
resses existenciais e porque envolve convicções e valores pes
soais. No entanto, a filosofia, desde sua origem, apresentou-
se como uma atividade do espírito que pede que suspendamos
as opiniões imediatas, que nos mantenhamos afastados das
discussões espontâneas, na medida em que estas só nos reme
tem a nossos preconceitos e a nossas crenças irrefletidas.
De fato, a filosofia se impôs através da história como um
desvio em relação ao concreto, ao vivido, ao subjetivo, a fim
X
METODOLOGIA FILOSÓFICA
de dar-se os meios e o tempo de estabelecer os pressupostos de
nossos pensamentos, de formular questionamentos claros,
de desenvolver raciocínios sistemáticos, de explorar diferen
tes configurações possíveis das idéias, em contato com sabe-
res ampliados e enriquecidos. Aprender a filosofar exige por
tanto uma paciência tanto maior quanto mais cedo nos dedi
camos a tal, isto é, na idade de todos os entusiasmos. Pois,
como já sublinhava Platão: “Deves ter notado, acredito, que
os adolescentes que alguma vez experimentaram a dialética
abusam dela e fazem dela um jogo, utilizando-a apenas para
contradizer, e, a exemplo daqueles que os confundem, tam
bém eles confundem os outros, sentindo prazer, como cachor-
rinhos, em acossar e espieaçar com o raciocínio todos os que
se aproximam”, quando o conveniente seria antes imitar "os
espíritos moderados e firmes, e, ao contrário do que se faz
atualmente, não deixar que se aproxime dela o primeiro que
chegar, se não trouxer alguma disposição" (A República, VII,
539 b s.).
E essencial portanto dispor, em filosofia, como na apren
dizagem das ciências teóricas ou aplicadas, de métodos que
não se confundam com simples técnicas pragmáticas, aplicá
veis a todos os problemas mas que permitam pensar melhor,
raciocinar melhor, refletir melhor por si mesmo sobre as
questões colocadas pela própria vida. Aprender filosofia não
é aprender a servir-se de um instrumento para aumentar
nosso poder sobre as coisas ou sobre os homens, mas é
adquirir progressivamente a arte de desenvolver as aptidões
de nosso próprio espírito a julgar e raciocinar em geral.
Em quais contextos encontram-se então os problemas de
metodologia filosófica? Dito de outro modo, quais são as
principais vias de acesso à filosofia e quais são suas dificul
dades?
Antes de mais nada, todo procedimento filosófico encon
tra diante de si uma história, um passado. Não poderíamos
fazer como se começássemos a filosofar sozinhos e pela pri
meira vez. Filosofar é, em primeiro lugar, colocar-se em pre-
sença de uma filosofia anterior. Entretanto, isso não significa
inclinar-se diante de uma tradição, como se festejam os san
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XI
tos; as grandes filosofias são algo bem diferente de obras-pri
mas insuperáveis que suscitariam a veneração e que devería
mos visitar como um museu. Ao contrário de uma fria histo
riografia, a história da filosofia deve servir para descobrir
pensamentos vivos em ação, para encontrar filosofias em ato,
através das quais possamos dar a nosso próprio pensamento
um suporte, um quadro para orientá-lo. Por isso a prática da
filosofia é, antes de mais nada, inseparável de uma freqüenta-
ção de textos que devemos aprender a ler, a explicar e a comen
tar. Por essa prática podemos esperar reconstituir escrupulosa
mente o trabalho do pensamento de outrem, evitando os este
reótipos escolares que simplificam as obras, contornando o
obstáculo das palavras e a aparência enganosa das fórmulas
prontas, ao mesmo tempo que situamos as filosofias em iti
nerários, contextos, sistemas coerentes, que as liberam de
todo peso histórico e as elevam à categoria de pensamento
vivo e atual.
Mas a história da filosofia torna-se, assim, um meio de
nos exercitarmos em formular e em resolver problemas. Tal é
o objetivo da dissertação, que, através de questões, acadêmi
cas ou inéditas, permite ao aprendiz de filósofo confrontar-se
com modos de raciocínio, hipóteses, escolhas, acompanhados
de suas premissas e conseqüências. A dissertação constitui
portanto, nesse sentido, uma espécie de pré-exercício de toda
atividade filosófica chegada à maturidade, um treinamento
em tamanho natural para pensar filosoficamente. Longe de
ser um exercício de escola impessoal e rotineiro, ela torna-se
a ocasião privilegiada para um pensamento inexperiente pôr-
se à prova, pôr-se em jogo assumindo riscos, efetuando esco
lhas, formulando conclusões, ainda que provisórias ou hipo
téticas. Compreende-se assim por que uma dissertação se
enriquece ao apoiar suas hipóteses e seus raciocínios numa
cultura filosófica histórica, que sirva não de molde, mas de
matéria-prima a um pensamento vivo e organizado. Com
preende-se também por que é preciso evitar refugiar-se atrás
de resumos estéreis de doutrinas que desempenhariam o
papel de tapa-buraco ou de enfeite, a fim de ostentar um
vaber ou de impressionar facilmente o leitor.
XII
METODOLOGIA FILOSÓFICA
Deste modo, a aprendizagem da filosofia, que visa em
princípio à autonomia intelectual, não pode dispensar o
domínio de técnicas de leitura, de interpretação de textos e de
tratamentos sistemáticos de questões clássicas. Ao confor-
mar-se e ao obrigar-se a tais exercícios, o espírito se forma
autenticamente, se disciplina metodicamente, para satisfazer
aquilo que o motiva, um desejo de pensar.
Certamente, ainda que todo estudante se veja confronta
do às mesmas necessidades intelectuais, não se poderia subes
timar a importância das situações individuais de aprendizagem
e deformação, pois as vias de acesso e as normas de êxito não
são as mesmas para todos. Em conseqüência, cabe personali
zar as formações, seu ritmo e seu estilo, e isto por duas
razões, pelo menos:- de um lado, é importante modular as exigências gerais
que vão ser expostas no livro, levando em conta a via universi
tária tomada pelo estudante. Não se espere a mesma amplitude
de conhecimentos e a mesma profundidade de reflexão de estu
dantes especializados em estudos de filosofia e daqueles para
os quais a filosofia representa apenas um ensino opcional num
currículo. Uma dissertação será avaliada diferentemente con
forme os cursos e as séries, mesmo se é lícito esperar de todo
estudante, por exemplo, as mesmas aptidões para ler um texto.
Aliás, terá que se prestar atenção ao fato de que certos cursos
de formação (classes preparatórias para a HEC*, por exem
plo) podem, segundo a natureza dos concursos, valorizar, em
maior ou menor grau, esta ou aquela qualidade metodológica;- de outro lado, convém prever, para certos estudantes,
conforme o curso seguido no ensino secundário, um programa
de trabalho preparatório ou complementar de nivelamento ou
de reforço dos saberes e habilidades, sobretudo por ocasião
do primeiro ano do primeiro ciclo universitário. Dadas a
diversidade de horários, as diferenças de nível de cultura e de
prática filosóficas, é aconselhado a esses estudantes que com
pletem seus conhecimentos, pautando-se pelos conteúdos e pe
* Escola Superior de Comércio. (N. do T.)
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XIII
las exigências do curso que teve o ensino filosófico mais com
pleto. Para tanto, recomenda-se que estudem por si mesmos, a
partir de obras adaptadas, as partes do programa que não
teriam sido abordadas e que reforcem sua cultura filosófica
através de livros de síntese sobre esta ou aquela parte do pro
grama, ou esta ou aquela corrente filosófica - algumas refe
rências serão encontradas na bibliografia final. Seja como for,
pode tornar-se indispensável aumentar o número dos exercí
cios (explicação e comentário de textos, dissertação) em rela
ção às normas em vigor no curso universitário.
Mas, qualquer que seja o perfil da formação anterior, a
eficácia do trabalho dependerá sempre da parte de empenho
pessoal, da capacidade de iniciativa do estudante, de seu
desejo de ler e de escrever, únicos fatores a permitir que o
conjunto das orientações a seguir dêem seus frutos. 0 presen
te livro não poderia, assim, convidar o estudante a contentar-
se em reproduzir esta ou aquela receita. Como um bom mes
tre, ele não tem outro objetivo senão tornar-se perfeitamente
inútil assim que se alcançou por si mesmo um domínio do tra
balho e do pensamento filosóficos, o que implica em primeiro
lugar um desejo de filosofar, pura e simplesmente
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